
Penso, logo existo.
abril 3, 2011Essa realidade descartiana da filosofia, quando eu era mais nova, logo me cativou. Se penso, logo existo, então serei eu um ser perfeito? Feito tão somente de idéias. Eis o primeiro passo que eu dei na racionalidade. Naquele dia, nos meus doze anos, deixei a infância. Conheci o silêncio daqueles que observam os mínimos detalhes, que se questionam sem descanso, que se elevam através das palavras, da casca que se forma ao redor de quem se deita no argumentar, na mudança constante de óculos para ver diferentes universos, sob a luz de cada teoria. Conheci sobretudo a dureza de quem luta o tempo todo, de quem busca a verdade, a idéia perfeita do ser. A brutalidade deste caminho é sutil, quem o escolhe raramente percebe, porque se torna idealista, constrói modelos e se torna rígido.
Sinto, logo vivo…incorrer em erros profundos, faz parte de nós. A racionalidade me tornou anestesiada, não era capaz nem de sentir a dor do corte de uma faca, o sangue não era meu. o corpo não era eu. Alguma outra coisa nasceu dentro de mim e era ela que eu queria machucar, afastar negar. vi-me na adolescência, menina de mim mesma. Os outros e eu. o que é esse eu? não sou perfeita, não busco a verdade, só quero deitar na grama e esquecer o teste de biologia. Ninguém entende, os outros não entendem, eu não entendo. Sentir. era fuga, quem foge se torna cansado, corre e nunca chega. Sentir era vontade de voltar a viver, era tentativa de afastar a dormência que tinha tomado conta, quem foge, se torna rígido porque tem que estar sempre olhando pra trás.
Poeira desta estrada que acumulei, primeiro a lutar e depois a fugir, me tornei pedra. Agora sou eu e eu mesma, a casca que contruí com minha racionalidade e que tentei machucar com minha sentimentalidade, está aqui, olha para mim e sente medo. Sente medo porque está prestes a ir-se, ela ria, ria muito de mim quando eu incorria em mesmos erros, quando sua vitória sob mim podia ser percebida. (sofrimento era sua forma de me dominar) mas acontece que não se pode dominar alguém sem se ser dominado, aí está sua força, ela me domina e eu domino ela, dessa maneira me torno dependente. Acontece, que descobri seu ninho, descobri suas idéias em minha cabeça e suas ações em meus sentimentos, e agora, não domino meu Ego, ele está aqui e morre a fome, míngua. Minha inocência e pureza, companheiras de minha infância, se configuram agora na minha maturidade. Precisei crescer para poder me tornar criança.
Compartilho, logo liberto: o existir, o viver e finalmente o compartilhar me floresceram em Mulher.

Entendo tudo, de coração. Já estive intoxicado pela racionalização da vida em uma de suas mais decadentes manifestações, a moral.
Pelas graças do Amor, eu ainda sou uma criança. E não pretendo deixar de ser por muito tempo. Muito tempo mesmo.
por você entender tudo de coração. por nossos corações se entenderem sem palavras ou gestos, por similaridade de inocências…