Um dia daqueles em que acordo na hora mais escura da madrugada, choro num misto de dor e incompreensão por não ser desse mundo. Ser do meu menino e do que acredito. mas vem a velha limitação. com suas teias e individualidades egoístas.
Rezo para o sem nome, com toda a gratidão que sinto, com todos os pedidos que tenho: com a alma nua, já que para você não posso ficar assim por hora.
Um dia daqueles em que acordo, entre paredes brancas (sem nenhuma marca de giz) e dentro do céu cinza de Viçosa.
Só divagações bobas e existenciais do meu cotidiano, mas que no fundo contem toda a razão de ser.

Trecho de O lobo da estepe de Herman Hesse(retirei algumas partes):
” O dia passara como normalmente passavam os dias: eu o havia desperdiçado, dissipado suavemente… Agradável, assim como ler os livros antigos ou demorar-me no banho quente, mas, afinal de contas, não fora a bem dizer um dia encantador, nem brilhante, nem feliz, nem plácido, mas tão somente um desses dias como desde algum tempo costumavam ser os normais da minha vida: moderadamente agadáveis, totalmente suportáveis, toleráveis(…), dias sem dores particulares, sem singulares preocupações, sem aflições especiais, sem desesperos(…).
Quem havia passado pelos outros dias,(…)das dores malignas por detrás dos globos oculares, transformando a alegria de ver e ouvir num tormento alucinante sobre os efeitos da enlouquecedora enxaqueca, ou aqueles dias de morte da alma, perversos de vazio interior e desespero, nos quais em meio à terra destroçada e ressequida pelas sociedades anônimas, o mundo dos homens e a chamada cultura ri-se de nós a cada passo com seu enganoso e vulgar esplendor de feira e nos atormenta com uma persistência emética, e quando tudo está concentrado e levado ao clímax do insuportável dentro do nosso próprio ser enfermo – quem já havia passado por aqueles dias infernais mostrava-se bem contente com esses de agora, normais e vulgares. (…)
Muito se teria a dizer sobre esse contentamento e essa ausência de dor, sobre esses dias suportáveis e submissos, nos quais nem o sofrimento nem o prazer se manifestam, em que tudo apenas murmura e parece andar nas pontas dos pés. Mas o pior de tudo é que tal contentamento é que não posso suportar(…). Então, desesperado tento escapar a outras regiões, se possivel a caminho do prazer, se não, a caminho da dor. Quando não encontro nem um nem outro e respiro a morna me diocridade dos dias chamados bons, sinto-me tão dolorido e miserável em minha alma infantil, preferindo sentir em mim uma verdadeira dor infernal do que essa saudável temperatura de um quarto aquecido. Arde então em mim um selvagem anseio de sensações fortes, um ardor pela vida desregrada, baixa, normal e esteril, bem como um desejo louco de destruir algo seja um armazém ou uma catedral, ou a mim mesmo, de cometer loucuras temerárias.(…)
Pois o que eu odiava mais profundamente e maldizia mais, era aquela satisfação, aquela saúde, aquela comodidade, esse otimismo bem cuidado dos cidadãos, essa educação adiposa e saudável do medíocre, do normal, do acomodado.
Nesse estado de espirito, portanto, havia atravessado mais um dia vulgar e tolerável, quando chegou a noite. (…) “