O frio inóspito da paisagem já havia aderido à pele e não lhe fazia mais diferença, ” o tempo se assenta aos errantes…”. Procurava caça há três dias e estava com uma costela quebrada e com o flanco aberto, mas desistir seria sua morte. Teve de abandonar todo o peso, só lhe restando a foice, era a figura transfigurada da luta em meio ao desespero. Mas traindo sua aparência faminta estava calma: “o futuro nunca fora tão igual.” Caminhar na neve era um instinto; seus pés o faziam antes dela mesma, buscando a segurança: abaixou-se abruptamente, mas já era tarde, o cansaço a distraíra; culpou-se por sua fraqueza e procurou se preparar.
A prórpia encarnação da fúria invernal corria para o ataque, um urso polar, também faminto. A guerra pela sobrevivência teve seu início, ambos a caça e o caçador e não contavam com a sorte, nem com ajuda de parte alguma. Decidiu não usar a foice de sua mãe e lutar de forma igual, se ganhasse era porque havia de conquistar essa vitória.
Gritou para convocar o sangue escondido em suas veias, para acordar a coragem. A violência do ataque do urso provocou ecos e foi jogada para longe, levantou e investiu: quando perto o suficiente saltou e montou no animal, que surpreendido não esperava pela rapidez do ataque e principalmente com a força que foi executado; segurou-lhe a mandíbula a puxando para si, o urso em frenesi mordia aquilo que o agarrava sem sucesso. Um barulho rachado indicou que conseguira quebrar a mandíbula, que agora jazia imóvel.
A dor era a total indiferença, as mãos feridas, o flanco aberto de novo e a costela ameaçando rasgar a pele; era uma filha da luta, ainda que abandonada de tudo. O que havia dentro dela era maior do que qualquer força: a vontade da vida e o poder da morte, afinal quem não tem nada aprende a arriscar até o que não tem.
O vermelho maculava a igualdade da paisagem e trazia a mudança consigo, avistou uma proeminência na neve e confundiu o urso até lá, fazendo-o girar sobre o próprio corpo e expor o pescoço à lâmina de gelo, só que cada parte do seu corpo pareceu ceder com o peso do animal e agora teve – apesar de não gostar – de contar com a sorte…
Devia ter desmaiado alguns momentos pela intensidade do impacto, mas se pôs logo de pé e começou o trabalho: rasgou a pele de forma a utilizá-la depois com a ajuda da foice pois as mãos estavam quase inúteis com os dedos mastigados, e não mais aguentando a fome se entregou à carne crua com sabor e cheiro fortes, apreciando a pouca vida que ainda lhe fora reservada para pertencer a este momento. Cortou alguns pedaços da carne para levar consigo, incluindo ossos e dentes que poderiam ser utilizados depois e se pôs na estrada para lugar nenhum novamente.
Suas feridas estavam piores, mas só o tempo poderia fazer algo por elas… “Isso é ruim, contar tanto com a sorte dos deuses.” e descobriu que era por isso que os deuses haviam de existir, para os momentos em que não há mais nada; pois é preciso de motivo para a luta. Ainda acredita que são os homens que escolhem os motivos e até talvez, as lutas…
Não importa, a solidão começava a envolvê-la, os passos incertos: Desabou.